Quarta-feira, 2 de Maio de 2012

Fernando Lopes.

 

"Seguindo o romance de Cardoso Pires, "lapidado como um diamante" (a expressão é de Fernando Lopes e percebe-se o que ele quer dizer com isso) pelo argumento de Vasco Pulido Valente, o filme leva-nos para o Portugal de há 30 e poucos anos, em pleno Inverno salazarista. O romance de Cardoso Pires, escrito em 1968, era contemporâneo da acção, com uma aguda percepção do fim de um tempo. O filme, preservando isso, confirmando-o, está no entanto em posição de filmar também o que não mudou, o que não passou com o tempo.

Nesse sentido, servindo-se de pequenas pinceladas subtis acaba também por construir um retrato do Portugal rural, da sua burguesia, dos seus sistemas sociais e das relações de poder que nele se engendram - "mutatis mutandis", o microcosmos da Gafeira, lugar que vale por muitos outros lugares, terra onde para além do "engenheiro" Palma Bravo as figuras de maior destaque são o padre e o cacique local, continua a existir um pouco por todo o país. Quando muito, e é por isso que "O Delfim" alberga uma aura viscontiana, o "fim de um tempo" talvez seja sobretudo o tempo de uma transferência de poderes, que podemos pressentir na "corte" que o regedor (Alexandre de Sousa) faz ao "delfim" Palma Bravo. O cauteleiro (José Pinto), verdadeira "vox populi" do filme, abana a cabeça, como se percebesse tudo, ou que nem tudo muda necessariamente para melhor.

(...) O coração do filme não é esse, mas o fortíssimo, e melodramático, retrato do casal composto por Tomás da Palma Bravo (Rogério Samora) e Maria das Mercês (Alexandra Lencastre) - extraordinária dupla de personagens, magnífica dupla de actores. É por aí que apetece dizer que "O Delfim" é um filme de retratista, apostado em pintar as suas personagens em todas as suas cambiantes e contradições, deixando em suspenso um julgamento moral. Quem julga são os "outros", o cauteleiro ou a criada da pensão (Márcia Breia) onde se alberga a "observadora" (mais do que "narradora") personagem de Rui Morrison, ou quando muito a História."

 

 

Neste excerto da crítica de Luís Miguel Oliveira a O Delfim, extraímos o génio de Fernando Lopes. Um nome grande do "Cinema Novo" português. Morreu hoje aos 76 anos. Aqui fica a minha homenagem. E, "que caia a noite".

publicado por Gonçalo Dorotea Cevada às 17:32
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Terça-feira, 1 de Maio de 2012

"In the land of blood and honey", de Angelina Jolie.

 

In the land of blood and honey é a longa-metragem em que Angelina Jolie se estreia como realizadora. Pensarão alguns (tal como eu o fiz), que desastre cinematográfico será esse?! Mais uma diva de Hollywood a aventurar-se na realização, e usar-se da sua fama enquanto actriz, simplesmente para vender?!

Bom, admito o preconceito estúpido, porque na verdade o filme está soberbo.

A película parte de uma história de amor entre uma mulher muçulmana e um oficial sérvio, (antes, durante, e no fim da guerra), para tratar de forma crua, sem adereços de um qualquer romantismo bacoco, a realidade tão contemporânea da Guerra dos Balcãs na Bósnia (1992-1995).

Um filme ultra realista, (com uso dos idiomas locais), com representações espantosas de dois desconhecidos: ele, um sérvio divido entre o amor por uma muçulmana e o dever militar e familiar; e ela, uma artista que vira escrava sexual num campo de concentração, e depois num cativeiro militar.

Num cenário de uma Sarajevo divida, destruída, mas com um charme eterno e imperdível. In the land of blood and honey, não esquece, a realidade das cerca de 20 mil mulheres muçulmanas que foram violadas durante a Guerra da Bósnia, naqueles que ficaram conhecidos como “campos de violação”. A descrição de uma ferida recente que matou milhares na Europa.

Jolie surpreendeu, e isso valeu-lhe o título de cidadã honorária de Sarajevo, nomeação que é atribuída anualmente a cidadãos estrangeiros que contribuam para a promoção da humanidade, democracia e tolerância naquele país, a Bósnia.

publicado por Gonçalo Dorotea Cevada às 17:37
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

And the Oscar goes to...

 

Algumas notas iniciais:

Num ano em que a academica assumiu a "nostalgia" como tema, e em que a Meryl Streep poderá ficar na história do cinema ao lado da Katherine Hepburn com três óscares, tenho pena que o Woody Allen esteja nomeado com o Midnight in Paris, porque, quanto a mim, o filme é mau; tenho pena que a Glenn Close nem sequer seja uma das favoritas e que, caso a Meryl Streep ganhe, como é esperado, ficarei contente, mas, e ao mesmo tempo com pena, porque, como também já o disse anteriormente, The Iron Lady vale pela interpretação de Meryl Streep e será uma pena se esta ganhar o seu terceiro óscar com o biopic sobre a Margaret Thatcher.

 

 

Melhor Actor Principal

Gary Oldman – a minha escolha.

Jean Dujardin – o provável vencedor.

 

Melhor Actor Secundário

Christopher Plummer – a minha escolha.

Christopher Plummer – o provável vencedor.

 

Melhor Actriz Principal

Meryl Streep/Glenn Close – a minha escolha.

Meryl Streep – a provável vencedora.

 

Melhor Actriz Secundária

Janet McTeer – a minha escolha.

Octavia Spencer – a provável vencedora.

 

Melhor Realizador

Terrence Malick – a minha escolha.

Martin Scorsese – o provável vencedor.

 

Melhor filme em língua estrangeira

“Uma Separação” – a minha escolha.

“Uma Separação” – o provável vencedor.

 

Melhor Filme

“A Árvore da Vida” – a minha escolha.

“O Artista” – o provável vencedor.

 

Melhor Argumento Adaptado

“A Toupeira” – a minha escolha.

“Os Descendentes” – o provável vencedor.

 

Melhor argumento original

“Uma Separação” – a minha escolha.

“O Artista” – o provável vencedor.

publicado por Gonçalo Dorotea Cevada às 21:52
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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

The Iron Lady.

 

Poderia ser um grande filme, mas não tem qualidade e originalidade técnicas suficientes para isso, em particular quando comparado com outros "biópicos". Vale sobretudo pela soberba interpretação Meryl Streep, que nos agarra o tempo inteiro a parte da história da Primeira-Ministra. Não é por isso um “filme da minha vida”, mas retrata a vida de uma das mulheres que mais admiro.

Como o disse Teresa de Sousa, não é um filme sobre a política tout court, não é um filme sobre o capitalismo, o liberalismo ou sequer sobre o tatcherismo; é sobretudo um filme sobre o carácter. Ora, não podia estar mais de acordo.

Margaret Thatcher foi, enquanto mulher na vida pública e na vida política, um exemplo de carácter, de convicção, de vontade de mudar para melhor, de insurreição contra o status quo confortavelmente instalado. M.T. mostrou o que é ter carácter, e como este pode moldar a forma de fazer política.

Thatcher mudou o mundo como o conhecemos: fez parte do fim da Guerra Fria, do declínio (e do fim) do comunismo enquanto modelo de regulação da vida das pessoas. Thatcher viu cedo aquilo que mais ninguém viu. De uma filha de merceeiro para um exemplo de liderança mundial.

A Dama de Ferro, como um dia um general soviético lhe chamou, percebeu cedo que o socialismo era terrível para a economia e para o desenvolvimento económico, combatendo-o desde sempre. Um verdadeiro modelo de como fazer política: premiando o valor, o trabalho e o mérito das ideias, e nunca dos “amiguismos”. Um exemplo ainda nos dias que correm de coragem e rectidão em como nunca nos devemos desviar daquilo que defendemos e acreditamos. Um exemplo para a dita direita não socialista, que, infelizmente no caso português, e, no que à forma de fazer política diz respeito, se distingue muito pouco dos ditos socialistas.

publicado por Gonçalo Dorotea Cevada às 00:46
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“Os bajuladores são honrados e os homens de bem sujeitados. O mesmo arbítrio reina nos decretos do povo e nas ordens dos tiranos. Trata-se dos mesmos costumes. O que fazem os bajuladores da corte junto a estes, fazem os demagogos junto ao povo.”, Aristóteles.
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