Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

As falácias da democracia

http://www.youtube.com/watch?v=N7cFKSqajxI

 

No passado 14 de Janeiro fomos brindados por um razoável – vejam bem (coisa rara) – programa de televisão. Digo razoável pois não quero incorrer no desfortúnio de não agradar a todos e logo no meu primeiro artigo (falácia I). Para quem gostou, terá que aceitar a razoabilidade do programa, para quem não gostou, o estatuto “razoável” não fará com que deixem de ler a publicação, espero. E porque é assim que se faz em democracia.

 

O programa é o “Conversas Improváveis” e contrapôs Marcelo Rebelo de Sousa a Ricardo Araújo Pereira, dois verdadeiros astros televisivos. Afirmo que se tratam de duas personagens muito bem aceites pelo grande público no geral. Na minha opinião, – depois de uma série de conversas interessantes sobre variadíssimos temas – o momento alto do serão deu-se ao minuto 44 quando, às estrelas cadentes, foi perguntado qual o pior e melhor político português de sempre:

 

Jamé alguém duvidou que o professor responderia Sá Carneiro para 1º lugar, já que o lugar de assessor não é algo que possa ser colocado à disposição de outro (até parece funcionário público). Dado o teor da conversa, também não seria inesperado que o humorista relegasse Cavaco Silva para a última posição da sua lista de preferências. A título de curiosidade: o pior e o melhor está no mesmo partido.

 

Espantou-me, porém, que nenhuma das super-novas fosse capaz de indicar qual o inverso da sua tabela, no caso do professor; o pior político de sempre, no caso do humorista; o melhor político de sempre. Escaparam-se ambos à pergunta de uma forma airosa, como se nada fosse, e não mais se voltou a tocar no assunto. Mas então porquê? Seria assim tão difícil? Até não nem era: ora vejam:

 

Professor: “Considero que o pior político português de sempre foi José Sócrates porque…” (Apesar de todos sabermos o ódio de estimação está fora de Portas).
Humorista: “Considero que o melhor político português de sempre foi Álvaro Cunhal porque…” (especulação).

Esta ausência de informação tem razões de ser:
Acompanhem o vídeo e concluam que todas as intervenções do Ricardo são acompanhadas por um, nem que breve, momento de humor. Ora, ainda hoje não foi encontrada forma de invocar humor quando falamos de Álvaro Cunhal ou o outro ex-líder comunista (falácia II). Falar de política sem humor seria uma machadada demasiado forte na sua popularidade e isso, a democracia não lhe permitiria. Caso contrário, não vislumbro liderança na sua ideologia política.

 

A questão do Professor é completamente diferente. Não esquecendo a sua obstinação de poder vir a ser um Cavaco do futuro é necessário agradar a muita gente (ou não desagradar). Não é de bom-tom atribuir últimas classificações a pessoas que não estão entre nós. Além disso, o pacto de não agressão de político deposto não lhe permite fazer algo desse género (falácia III). Com efeito, teria de eleger alguém no activo, alguém que teria apoios de uma faixa da população e isso a democracia não lhe permitiria.
As inóspitas 3 falácias aqui citadas não são mais do que uma obrigação democrática. Porque todos violentámos um conceito basicamente bom e subvertemo-lo a actos de popularidade. Desagradar ao menor número de pessoas possível já que perspectivamos futuro sufrágio. Porque somos políticos de carreira é esta a nossa sina e única alternativa.

Se o populismo me serve para fins comerciais então tudo bem,
Se o populismo me serve para fins políticos então tudo bem na mesma!
Se democracia é isto! Não muito obrigado…


publicado por Miguel Ferreira do Amaral às 18:06
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3 comentários:
De Gonçalo Dorotea Cevada a 26 de Janeiro de 2012 às 00:04
Muito bem visto.


De Gonçalo Dorotea Cevada a 26 de Janeiro de 2012 às 00:05
Será que o RAP está a pensar vir a suceder ao Francisco Louçã?!


De Miguel Ferreira do Amaral a 31 de Janeiro de 2012 às 21:09
Não é uma pergunta descabida. Sou de opinião que para ingressar no política ou comentário político basta o RAP querer. Só acontecerá quando se esgotar o humor (já esteve mais longe).


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“Os bajuladores são honrados e os homens de bem sujeitados. O mesmo arbítrio reina nos decretos do povo e nas ordens dos tiranos. Trata-se dos mesmos costumes. O que fazem os bajuladores da corte junto a estes, fazem os demagogos junto ao povo.”, Aristóteles.
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