Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Demagogia macroeconómica

Hoje trago-vos um tema quase esquecido. Lembram-se da polémica do IVA nos ginásios?

 

Há algum tempo atrás, os ginásios beneficiaram de uma redução do imposto sobre valor acrescentado de 21% para 5%. A supracitada polémica surgiu quando os preços não acompanharam a descida do imposto. A concepção do incentivo à prática de desporto e combate à obesidade esbarrou na má vontade e ganância dos administradores de ginásios. Será bem assim? Não!

Infelizmente tratou-se de uma medida governamental puramente demagógica e para agradar a mais uma agência (agrado com luvas, claro!). Desde já peço desculpa aos leitores economistas pela imprecisão técnica mas o presente artigo visa falar a todo o cidadão.

 

Para começar, invoco 2 dos conceitos mais básicos da economia; as curvas da “oferta” e da “procura”. A “curva da procura” diz-nos que quanto mais baixo for o preço de determinado produto maior será a quantidade de produto procurado. A “curva da oferta” indica que quanto mais alto for o preço de determinado produto maior será a quantidade de produto disponível para comércio. Graficamente os dois comportamentos podem ser explicados pela seguinte figura:

 

 

Na intercepção das duas curvas está o ponto de equilíbrio. Para cada produto existe um preço e uma quantidade óptima que satisfaz simultaneamente as exigências da oferta e da procura.

 

A “elasticidade de preço” é uma medida que indica a sensibilidade da procura e da oferta face a alterações no preço de um bem. Graficamente é representada pela inclinação das duas curvas. Quanto mais horizontais forem as curvas maior é a sua elasticidade e vice-versa.

 

No caso dos ginásios, podemos afirmar que as pessoas são muito sensíveis aos seus preços. Se algum ginásio for demasiadamente caro, o comprador comum opta por outro ou, se na região não houver alternativa, não frequenta o ginásio. Temos portanto uma “curva da procura” quase horizontal (muito elástica).

No caso da oferta acontece precisamente o contrário. Se o dinheiro auferido pelo negócio dos ginásios aumenta, tende a existir uma explosão do número de ginásios (temos vindo a assistir a este fenómeno nos últimos 10 anos). Com efeito, a curva da oferta é quase vertical (pouco elástica). A representação gráfica encontra-se na figura seguinte:

 

 

Agora suponhamos uma redução drástica no IVA. A curva da oferta deslocar-se-ia 16 pontos percentuais na vertical tal como indica a figura seguinte (reparem na escala exagerada “redução do IVA”, a redução é 50% do preço praticado):

 

 

Rapidamente o mercado procura um novo equilíbrio (preço P1 e quantidade Q1). Apesar da grande translação da curva da oferta constatem que preço diminui praticamente nada e a quantidade também pouco se altera (apesar da escala exagerada). Quem ficou a ganhar? Descubram na próxima figura.

 

 

A conclusão é óbvia. No negócio dos ginásios, como em alguns outros, reduções ou aumentos de taxas não são repercutidos no consumidor final. Nem tudo são más notícias, desde Janeiro de 2012 que os ginásios pagam IVA à taxa de 23% e não sentimos qualquer diferença.

 

O grave nesta história toda é: (citando um ex-primeiro-ministro) qualquer estudante de economia do primeiro ano saberia disto. Houve um governante que quis “fazer um bonito” pseudo-incentivando o exercício físico e ao mesmo tempo “fazer um jeito” à agencia dos ginásios portugueses. Assistimos impávidos e serenos a mais um prejuízo do estado e do contribuinte em prol dos ginásios – em função do IVA que deixou de ser pago – e o mau-carácter que tomou esta medida (que até tem cara de bom rapaz), fica impune. Não é novidade, acontece com praticamente todos os ministros que tomam medidas que lesam o contribuinte em benefício das agências ou de si próprios. Esse senhor deve-me dinheiro, parte da minha dívida hoje foi contraída por ele, e por isso, quero responsabilizá-lo.

 

Se por acaso o senhor que tomou esta medida não sabia que isto poderia acontecer então que venha admitir a sua ignorância e incompetência pois quero responsabilizá-lo na mesma.

publicado por Miguel Ferreira do Amaral às 11:51
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