Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

Conservadorismo

O leitor incauto perguntar-se-à sobre o que raio é um CRAT. Na busca desesperada para encontrar um termo que defina um movimento conservador, reaccionário, autoritário ou tradicionalista, resolvi por fim baixar os braços, desistir e entregar a um movimento sério e promissor uma temporária sigla pateta - C(onservador) R(eaccionário) A(utoritário) T(radicionalista).

Um movimento conservador baseia-se em 6 premissas:

 

1 - todo o edifício de pensamento conservador assenta na crença num Princípio Criador de todo o Universo, um Mestre Eterno com autoridade suprema sobre as leis materiais da Existência;

2 - a moralidade absoluta. Proveniente da experiência religiosa e social da comunidade, é inquestionavelmente a base da lei pública, e daí a necessidade da existência do Estado, que é o promotor principal do Bem Comum;

3 - o princípio fundamental da acção do Governo é balizado pelo princípio da subsidiaridade, presente na Doutrina Social da Igreja Católica, ou seja, a acção do aparelho burocrático supremo só se deve dar quando os organismos mais pequenos e pessoais (Família, Paróquia, Município, Empresa, Sindicato, Associação, etc.) falharem em providenciar à sociedade uma resposta eficaz que apazigúe a exigência de Paz Pública demandada pelo Bem Comum a toda a sociedade;

4 - o Estado deve preservar e respeitar a originalidade regional dos múltiplos centros de poder tradicionais. Não só se impõe um reforço do princípio da subsidiaridade, como um movimento CRAT propõe toda uma nova perspectiva sobre o problema da soberania e os limites do poder estatal - o poder estatal absoluto criado pela Revolução Francesa e pelo Demo-Liberalismo, reforçados pelos Nacionalismos e pelos Socialismos e agora pelo Mega-Estado Europeu são aqui postos em causa e em cheque. Toda uma nova orgânica presta-se aqui a ser construída;

5 - anti-individualismo. O limite pessoal em prol do bem da comunidade é mais valioso do que o esforço sobre-humano para vencer a todo o custo a competição que a Educação e a Mentalidade Moderna querem implementar nas mentalidades ocidentais. A Massificação e a Uniformidade são características Pós-Modernistas enquanto que a Heterogeneidade e a Unidade são os fundamentos da tradicional riqueza cultural e civilizacional Europeia.

6 - a procura por um equilíbrio sustentável entre a Liberdade pessoal e a liberdade das unidades tradicionais da sociedade. Este equilíbrio deve partir pela atribuição a cada indivíduo do máximo racional de liberdade. Esta Liberdade pauta-se pela felicidade individual e social, e não tem nada a ver com a suposta "liberdade para errar". No Erro não existe Liberdade, pois ele afasta a Dignidade e a Espiritualidade. No entanto, o princípio do máximo de liberdade racional não se prende a uma norma puritana ou a um Estado Totalitário Ultra-Moralista. Tal como afirma São Tomás de Aquino, o ser humano tem como dado inerente à sua existência a Culpa, o Pecado Original, e como tal, apesar de poder ser aperfeiçoado, não terá nunca a possibilidade de se tornar perfeito. Como tal, sendo o pecado parte natural do homem, tem o Estado obrigatoriamente de velar pelo seu bem mas ao mesmo tempo permitir que este possa conviver e aprender com os seus instintos pecadores, uma vez que esta é a sua natureza concedida por Deus. Um Estado que proíba totalmente o pecado é uma negação do Homem e da Redenção.

 

Posta esta exposição, pergunta-se o leitor "Não é pois suficiente a denominação de Conservador para um movimento que pretende ser, antes de tudo, conservador?"

 

Seria, não fosse a própria raiz da palavra inútil à vista da actualidade portuguesa. Já não há nada para conservar em Portugal. A Tradição ou morreu ou vai lutando quase desarmada contra um Estado poderosíssimo e uma Nova (a)Moralidade invencível e destrutiva. Os partidos conservadores portugueses são aqueles que, aceitando os preceitos da Revolução e do Materialismo, apenas pedem que se mantenha algum do status quo antigo, que lhes permita alguma da paz social mínima para manter alguma capacidade produtiva e as diferenças sociais que lhes agradam, não por sentido de dever patriótico mas sim por utilitarismo e vaidade pura. Um Movimento CRAT não é só conservador.

 

Nas Palavras de António Sardinha:

 

«Não somos conservadores - dada a passividade que a palavra ordinariamente traduz. Somos antes renovadores, com a energia e a agressividade de que as renovações se acompanham sempre. O nosso movimento é fundamentalmente um movimento de guerra. Destina-se a conquistar - e nunca a captar. Não nos importa, pois, que na exposição dos pontos de vista que preconizamos se encontrem aspectos que irritem a comodidade inerte dos que em aspirações moram connosco paredes-meias. É este o caso da Nobreza, reputada como um arcaísmo estéril em que só se comprazem vaidades espectaculosas. A culpa foi do Constitucionalismo que reduziu a Nobreza a um puro incidente decorativo, volvendo-a numa fonte de receita pingue para a Fazenda. Foge, cão, que te fazem barão!- chacoteava-se à volta de 1840. Mas para onde, se me fazem visconde?! E nas cadeiras da governança o cache-nez célebre do duque de Avila e Bolama ia esgotando os recursos do Estado em matéria de heráldica.»

 

E é precisamente esta peculiaridade que nos leva ao segundo elemento de um movimento CRAT, em análise no próximo texto: o Tradicionalismo.

publicado por Manuel Pinto de Rezende às 22:30
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5 comentários:
De Gonçalo Dorotea Cevada a 28 de Fevereiro de 2012 às 23:16
Caro Manel,

Apesar do brilhantismo formal do texto, não posso estar mais em desacordo com o conteúdo do mesmo. Sobretudo porque defender um Estado moralidazor e detentor de uma espécie de "moral colectiva"/"verdade colectiva", controlando a vida privada dos cidadãos é e será sempre castrador da liberdade individual do Homem.

A "liberdade para errar" é também ela uma dimensão da liberdade individual do Homem e nunca, e em caso algum poderá ser limitada.

O individualismo é essencial ao desenvolvimento do ser humano, e à potenciação das suas capacidades individuais tão essenciais para um mundo livre. Ter como premissa que o Homem é fraco e que precisa do Estado como da água para viver é tão errado como ainda acreditar em Marx.


De Gonçalo Dorotea Cevada a 28 de Fevereiro de 2012 às 23:16
*Estado moralizador


De Manuel Pinto de Rezende a 29 de Fevereiro de 2012 às 00:14
Segunda a perspectiva conservadora, a liberdade não é um fim, mas um meio para chegar a um fim. O percurso para chegar a esse fim é limitado, a toda a altura, pelo Bem Comum social.

A solução não é recorrer ao Estado, mas sim aos organismos intermédios que permitem fortalecer a Pessoa perante o Poder Público. Não me refiro, portanto ao colectivismo, que é só uma forma mais inteligente e eficiente que o individualismo para a completa Massificação da Sociedade Política.

E já agora, se um Estado não tem uma função moralizadora, para que é que existe?


De Gonçalo Dorotea Cevada a 9 de Março de 2012 às 15:19
Manel,

(Primeiro peço desculpa pela demora na resposta à tua pergunta mas estive de férias...)


O Estado não deve ter nunca uma função moralizadora. Ora, perguntas-me porque razão é que existe o Estado?
Pois bem, o Estado serve para garantir a segurança individual dos cidadãos; por razões diplomáticas e de política externa; e ainda como garante da liberdade dos cidadãos e das empresas, em particular no que à concorrência de mercado diz respeito (ainda que de modo excepcional).
Admitir que o Estado prossegue fins morais é negar essa capacidade humana, e esse espaço de livre arbítrio individual a cada cidadão.


De Manuel Pinto de Rezende a 13 de Março de 2012 às 09:34
Esse ponto de vista é perfeitamente válido para uma perspectiva lockeana. De momento, o espectro político da civilização ocidental divide-se somente entre lockeanos de esquerda e de direita. No entanto, outros tipos de filosofia política existem - a cristã, herdeira da concepção platónia e aristotélica, considera a comunidade como algo orgânico e natural, em vez de algo sintético e artificial. Assim está provida de uma finalidade própria que exige, entre outras coisas, um fim moral, um limite de acção para os cidadãos dentro do qual eles encontrem plena liberdade.


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